Um dos erros mais comuns de quem registra marca pela primeira vez é escolher a classe errada no INPI — ou pior, escolher só uma classe quando o negócio precisaria de duas ou três. Isso não é um detalhe burocrático: a classe define exatamente o que está protegido. Se você registra sua marca na classe errada, pode descobrir anos depois que um concorrente usa o mesmo nome em um segmento que você nem sabia que precisava proteger.

O sistema de classes de marca no INPI segue a Classificação Internacional de Produtos e Serviços, conhecida como Classificação de Nice. Ela existe justamente para organizar o universo de produtos e serviços em grupos, permitindo que duas empresas com nomes parecidos coexistam sem conflito, desde que atuem em ramos totalmente diferentes. Entender essa lógica é o primeiro passo para não desperdiçar dinheiro nem deixar brechas na proteção da sua marca.

O que são as classes de marca e por que elas existem

A Classificação de Nice divide produtos e serviços em 45 classes: 34 para produtos e 11 para serviços. Cada classe reúne itens que, de alguma forma, fazem sentido juntos do ponto de vista comercial — por exemplo, roupas ficam em uma classe, enquanto serviços de consultoria em moda ficam em outra.

Essa divisão existe porque o direito de marca não é absoluto. Ele é territorial (vale no Brasil) e também é setorial (vale para os produtos e serviços registrados). Duas padarias com o mesmo nome fantasia em cidades diferentes podem até coexistir sem grandes problemas, mas duas empresas com nomes idênticos na mesma classe, atuando no mesmo mercado, vão gerar confusão no consumidor — e é exatamente isso que o INPI tenta evitar.

Se você já leu sobre o que pode ser registrado como marca no INPI, sabe que o registro protege um sinal distintivo aplicado a um contexto específico. A classe é justamente esse contexto.

Classes de produtos x classes de serviços

Vale entender a diferença prática entre os dois grandes grupos:

  • Classes de produtos (1 a 34): cobrem itens físicos, como alimentos, cosméticos, roupas, eletrônicos, produtos de limpeza, bebidas, entre outros.
  • Classes de serviços (35 a 45): cobrem atividades prestadas, como publicidade, educação, saúde, hospedagem, transporte, serviços jurídicos e tecnológicos.

Uma loja de roupas que também vende consultoria de estilo pessoal, por exemplo, pode precisar tanto de uma classe de produto (vestuário) quanto de uma classe de serviço (consultoria), dependendo do que realmente oferece ao mercado.

Por que a classe errada compromete sua proteção

Registrar na classe errada é como pagar um seguro para o carro do vizinho. Você tem um documento, mas ele não cobre o que realmente importa para o seu negócio. Isso costuma acontecer por três motivos principais:

  1. O empreendedor escolhe a classe mais barata ou mais genérica, sem analisar o que de fato vende.
  2. O pedido é feito com base no nome de uma classe parecida, sem checar a especificação exata de produtos e serviços.
  3. A empresa cresce e passa a atuar em novas frentes, mas nunca atualiza o registro para incluir as novas classes.

O resultado prático é que a marca fica desprotegida justamente onde a concorrência pode aparecer. Um restaurante registrado apenas na classe de "serviços de alimentação" pode não ter proteção alguma se decidir vender molhos engarrafados com o mesmo nome — porque produtos alimentícios embalados ficam em outra classe.

Esse tipo de lacuna está diretamente ligado aos riscos de não registrar sua marca, mesmo quando existe um registro parcial que dá uma falsa sensação de segurança.

Como descobrir a classe certa para o seu negócio

O caminho mais seguro é começar pela lista oficial de classes e, dentro delas, pela especificação de produtos e serviços que o próprio INPI disponibiliza. Essa especificação é o que realmente conta — o nome da classe é só um resumo, e depositar sem detalhar bem o que você vende ou presta pode gerar exigências do examinador.

Um exercício simples ajuda bastante: liste tudo o que sua empresa vende ou presta hoje, sem filtro. Depois, agrupe esses itens por afinidade. Na maioria dos casos, um pequeno negócio consegue enquadrar sua atividade principal em uma ou duas classes, mas negócios com portfólio mais amplo — como uma marca de cosméticos que também oferece cursos de maquiagem — podem precisar de três ou mais.

Perguntas que ajudam a filtrar a classe

  • O que exatamente o cliente recebe quando compra de mim: um produto físico, um serviço, ou os dois?
  • Existe alguma linha de produto ou serviço que pretendo lançar nos próximos um ou dois anos?
  • Meus concorrentes diretos estão registrados em quais classes? (Vale pesquisar no sistema de buscas do INPI.)
  • Vendo só no Brasil ou pretendo expandir para marketplaces e exportação?

Essa última pergunta importa porque, se você vende também para fora do país, o cuidado com classes precisa ser combinado com outras estratégias, como mostrado em vendeu no Mercado Livre? Registro no Brasil não basta.

O papel da busca de anterioridade na escolha da classe

Antes de decidir a classe, é essencial fazer uma pesquisa prévia para ver se já existe alguém usando um nome igual ou parecido no mesmo segmento. Essa etapa, chamada de busca de anterioridade, evita que você deposite um pedido em uma classe onde a concorrência já está consolidada — e onde seu pedido tem grande chance de sofrer oposição ou ser indeferido.

O processo está detalhado em busca de anterioridade: como funciona antes de registrar e em busca de anterioridade: o primeiro passo antes de registrar. Fazer essa checagem por classe, e não só pelo nome da marca isoladamente, é o que garante uma análise completa.

Um negócio pode precisar de mais de uma classe?

Sim, e isso é mais comum do que parece. Cada classe adicional representa um pedido separado dentro do sistema do INPI, com uma taxa própria — por isso é importante equilibrar abrangência com orçamento disponível. Vale a pena revisar os valores atualizados em quanto custa registrar uma marca no Brasil em 2026, sempre confirmando os valores exatos diretamente no site do INPI, já que as taxas podem ser reajustadas.

Alguns exemplos práticos de negócios que costumam precisar de múltiplas classes:

Tipo de negócioClasse provável 1Classe provável 2
Salão de beleza que vende produtos própriosServiços de belezaCosméticos
Academia com loja de suplementosServiços de educação físicaProdutos alimentícios/suplementos
Marca de roupas com e-commerce próprioVestuárioServiços de comércio eletrônico
Escritório de arquitetura que também vende móveisServiços de arquiteturaMóveis e decoração

Se o seu modelo de negócio for parecido com um desses, vale revisar também o conteúdo sobre nome, logotipo ou slogan: o que registrar no INPI, porque a combinação de elementos protegidos e classes escolhidas define o alcance real da sua marca.

Erros comuns na hora de escolher a classe

Alguns padrões se repetem entre empresas que buscam ajuda depois de um problema já instalado:

  • Copiar a classe de um concorrente sem checar se ela cobre o próprio negócio. Duas empresas parecidas podem ter modelos de operação diferentes.
  • Escolher só a classe mais barata, mesmo sabendo que o negócio vai crescer para outras frentes em breve.
  • Ignorar serviços digitais quando a empresa vende também por aplicativo, marketplace ou site próprio — um erro cada vez mais comum com o crescimento do comércio eletrônico.
  • Não revisar as classes depois de expandir o portfólio, deixando produtos ou serviços novos completamente sem proteção.

Esse último ponto merece atenção redobrada por quem já tem registro há alguns anos. Se sua empresa não usa mais a marca exatamente como foi registrada, ou passou a atuar fora da classe original sem atualizar nada, vale entender também como funciona a caducidade de marca: como não perder seu registro, já que o não uso dentro da classe registrada pode ser questionado por terceiros.

Franquias, marcas coletivas e classes específicas

Negócios com modelo de franquia costumam ter uma camada extra de complexidade, porque a proteção da marca precisa cobrir tanto os produtos ou serviços vendidos quanto o próprio modelo de licenciamento da marca para franqueados. Esse tema é aprofundado em franquias e marca registrada: por que uma depende da outra.

Já cooperativas, associações e grupos de produtores que usam um selo comum — como um selo de qualidade regional — normalmente não se encaixam no registro tradicional de marca individual, e sim em modalidades específicas. Vale conferir a diferença em marca coletiva e de certificação: quando usar cada uma antes de decidir a estrutura do pedido.

Vale a pena pedir ajuda especializada para definir a classe?

Definir a classe certa exige cruzar três informações: o que sua empresa realmente vende, como a Classificação de Nice descreve tecnicamente esses itens, e como a concorrência já está posicionada dentro dessas mesmas classes. Sozinho, esse processo pode levar horas de pesquisa e ainda assim deixar dúvidas.

Um profissional especializado em registro de marcas já conhece a lógica das classes no dia a dia e consegue identificar rapidamente onde estão as lacunas de proteção — inclusive prevendo classes que o próprio empreendedor ainda não tinha considerado. Esse ponto está bem explicado em especialista em registro de marca: por que vale a pena.

De qualquer forma, antes de decidir sozinho ou com apoio profissional, vale seguir o fluxo completo descrito no passo a passo do registro de marca no INPI, que situa a escolha da classe dentro do processo maior de depósito.

Conclusão

Escolher a classe certa no INPI é uma das decisões mais importantes — e mais subestimadas — de todo o processo de registro de marca. Ela define exatamente o que está protegido, e um erro nessa etapa pode deixar brechas que só aparecem quando já é tarde demais, com um concorrente usando o mesmo nome em um segmento próximo ao seu.

O caminho mais seguro passa por mapear tudo o que sua empresa vende ou presta hoje, considerar planos de expansão próximos, fazer uma busca de anterioridade bem feita e, sempre que o orçamento permitir, registrar em todas as classes que realmente fazem sentido para o seu modelo de negócio — não apenas na mais óbvia ou mais barata.