Se você já ouviu falar em "marca de alto renome" e ficou com a impressão de que é algo distante, reservado só para gigantes como Coca-Cola ou Nike, faz sentido. Mas uma mudança recente na forma como o INPI analisa esse status merece atenção de qualquer empresário que está construindo uma marca forte: agora, ter múltiplos registros da mesma marca em diferentes classes passou a contar como um fator relevante para sustentar o pedido de alto renome. Isso muda a lógica de proteção e traz mais segurança jurídica para quem constrói um portfólio de marcas ao longo dos anos.
Neste artigo, vamos explicar o que é essa regra, por que ela existe, e — o mais importante — o que isso ensina sobre a forma como qualquer negócio, mesmo pequeno, deveria pensar sua estratégia de registro de marca desde o início.
O que é a marca de alto renome, rapidamente
A marca de alto renome é uma proteção especial concedida pelo INPI a marcas que atingiram um nível de reconhecimento tão alto que o público em geral — não só o consumidor daquele setor específico — as identifica de imediato. Diferente do registro comum, que protege a marca apenas na classe registrada, o alto renome estende essa proteção para todos os ramos de atividade.
Isso significa, na prática, que ninguém pode usar aquela marca em nenhum segmento, mesmo que totalmente diferente do original. Já exploramos como essa proteção especial passou por mudanças recentes em Marca de Alto Renome: O que Mudou no INPI em 2026, e vale a leitura para entender o panorama completo.
O ponto central é que conseguir esse reconhecimento nunca foi simples. O processo exige provas robustas de que a marca realmente alcançou esse patamar de notoriedade — e é justamente aqui que entra a novidade sobre múltiplos registros.
A lógica antiga: depender de um único registro
Até pouco tempo, o pedido de alto renome costumava se apoiar fortemente em um registro específico — geralmente aquele ligado à atividade principal da empresa. Se uma marca de roupas pedisse o alto renome, o foco de análise girava em torno do registro dela na classe de vestuário.
O problema dessa abordagem é que ela deixava a proteção mais frágil em alguns cenários. Caso aquele registro específico enfrentasse alguma contestação, tivesse problemas de renovação ou passasse por disputas judiciais, todo o pedido de alto renome ficava exposto a riscos que nem tinham relação direta com a força real da marca perante o público.
Era como sustentar uma casa inteira em uma única viga: funcional, mas arriscado.
A nova regra: o histórico de registros como reforço
A mudança trazida pelo INPI reconhece algo que faz sentido na prática comercial: marcas verdadeiramente fortes normalmente não vivem de um único registro. Elas se expandem, criam produtos derivados, entram em novos mercados e, ao longo do caminho, acumulam vários registros em classes diferentes.
Com a nova regra, esse histórico de múltiplos registros passa a ser considerado uma evidência a favor do alto renome, e não apenas um detalhe secundário. Quanto mais consistente e ampla for a presença da marca — registrada em diferentes classes, mantida ativa ao longo dos anos, renovada corretamente — mais robusto fica o conjunto de provas que sustenta o pedido.
Na prática, isso funciona como uma rede de segurança. Se um registro específico sofrer algum questionamento, os demais continuam demonstrando a presença consolidada da marca no mercado. A proteção deixa de depender de um único ponto de falha.
Por que isso importa mesmo para quem não almeja o alto renome
Você pode estar pensando: "minha empresa é pequena, isso não me afeta". Mas a lógica por trás dessa mudança carrega um ensinamento valioso para negócios de qualquer porte.
Empresas que registram sua marca apenas na classe mais óbvia do seu negócio principal — e ignoram produtos ou serviços correlatos que pretendem oferecer no futuro — ficam mais vulneráveis. Se um concorrente registrar a mesma marca (ou uma parecida) em uma classe vizinha, a empresa original pode ter dificuldade de expandir depois.
Entender como escolher as classes certas desde o início é um passo estratégico que evita esse tipo de dor de cabeça mais adiante.
Como funciona na prática: um exemplo hipotético
Imagine uma rede de cafeterias que nasceu pequena, registrou sua marca na classe de serviços de alimentação e, com o tempo, cresceu. Ela passou a vender também produtos embalados (café moído, xícaras personalizadas) e criou uma linha de franquias.
Se essa empresa registrou a marca separadamente em cada uma dessas frentes — serviços de alimentação, produtos alimentícios, licenciamento de franquia — ela constrói, ao longo dos anos, um histórico consistente de uso e proteção da marca em múltiplas classes.
Caso, futuramente, essa cafeteria queira pleitear o status de alto renome (algo que normalmente só faz sentido para marcas com reconhecimento nacional consolidado), esse conjunto de registros funcionará como prova concreta de que a marca não é um fenômeno passageiro, mas uma presença construída e sustentada no tempo.
Esse mesmo raciocínio se aplica a negócios que optam pelo modelo de franquia, onde a marca precisa estar protegida tanto na atividade-fim quanto no próprio sistema de franqueamento. O artigo Franquias e Marca Registrada: Por Que Uma Depende da Outra detalha bem essa relação.
Segurança jurídica: o real ganho dessa mudança
O maior benefício prático dessa nova forma de avaliação não é apenas facilitar quem busca o alto renome — é reduzir a fragilidade jurídica de marcas fortes de forma geral.
Antes, uma empresa com décadas de mercado e reconhecimento amplo podia ver seu pedido de alto renome travado por uma questão pontual em um único processo. Agora, o exame passa a olhar para o quadro completo: o conjunto de registros, o tempo de manutenção ativa, a consistência da presença da marca em diferentes frentes de atuação.
Isso traz mais previsibilidade tanto para quem está pleiteando o alto renome quanto para o mercado em geral, que passa a lidar com decisões baseadas em um panorama mais completo, e não em detalhes isolados de um único processo administrativo.
O papel da manutenção correta dos registros
Vale reforçar um ponto que costuma passar despercebido: de nada adianta acumular vários registros se eles não forem mantidos em dia. Um registro vencido ou renovado fora do prazo perde força como prova de uso contínuo.
Por isso, empresas que já têm múltiplos registros — ou pretendem construir esse portfólio — precisam ficar atentas aos prazos de renovação. O artigo Vencimento do Registro de Marca: Quando e Como Renovar explica esse processo em detalhes e vale a leitura para quem já tem mais de um registro ativo.
O que pequenas e médias empresas podem aprender com isso
Mesmo que sua empresa esteja longe de cogitar um pedido de alto renome, a lógica por trás dessa regra serve como um guia estratégico valioso:
- Pense além da classe óbvia. Se você vende produtos físicos e também presta serviços relacionados, avalie registrar a marca nas classes que fazem sentido para o seu crescimento futuro, não só para o que você vende hoje.
- Mantenha os registros sempre ativos. Um portfólio de marcas só tem valor se estiver em dia. Atrasos em renovação enfraquecem qualquer estratégia de proteção.
- Documente o uso da marca ao longo do tempo. Materiais de marketing, notas fiscais, contratos e registros em diferentes classes ajudam a construir um histórico sólido, útil tanto para defesa em disputas quanto para eventuais pedidos futuros de reconhecimento especial.
- Faça a busca de anterioridade antes de expandir. Antes de registrar em uma nova classe, é essencial confirmar que ninguém já registrou algo parecido naquele segmento. O guia sobre Busca de Anterioridade explica como fazer essa verificação corretamente.
Esse tipo de planejamento não é exclusividade de marcas gigantes. Pequenas empresas que pensam no longo prazo, mesmo que comecem com apenas um registro, já saem na frente ao entender que a proteção de marca é um processo contínuo, não um evento único.
Marca forte também é ativo financeiro
Vale lembrar que uma marca bem protegida, com histórico consistente de registros, não é apenas uma questão jurídica — ela também agrega valor real ao negócio. Empresas com portfólio de marcas organizado costumam ter mais facilidade em processos de venda, parceria ou expansão, justamente porque demonstram solidez e planejamento.
Esse tema é aprofundado em Marca Registrada Aumenta o Valor da Empresa? Entenda, que mostra como a proteção da marca influencia diretamente na percepção de valor de um negócio, seja ele pequeno ou já consolidado.
Cuidado com quem ainda não tem nenhum registro
Se sua empresa ainda opera apenas com CNPJ e nome fantasia, sem nenhum registro no INPI, essa discussão sobre múltiplos registros pode parecer distante da sua realidade — mas é justamente o momento de começar. Toda estratégia de portfólio de marcas nasce do primeiro registro bem feito.
Empresas em fase inicial, incluindo MEIs, também se beneficiam de entender esse caminho desde cedo, como mostra o artigo Registro de Marca para MEI e Pequenas Empresas: Vale a Pena?.
Como confirmar as informações atualizadas
Como essa é uma área que passa por atualizações constantes de entendimento e procedimento, o recomendado é sempre confirmar as regras vigentes diretamente no site oficial do INPI (gov.br/inpi) antes de tomar decisões importantes sobre registro, renovação ou pedidos de alto renome. Prazos, exigências documentais e critérios de exame podem sofrer ajustes ao longo do tempo.
Conclusão
A regra que passa a considerar múltiplos registros como sustentação para o alto renome reflete uma mudança de mentalidade importante: marcas fortes não se constroem em um único ponto, mas em uma rede consistente de proteção construída ao longo do tempo. Para empresas que já têm vários registros, isso significa mais segurança jurídica e menos dependência de um único processo. Para quem está começando, é um lembrete valioso de que pensar na proteção da marca de forma estratégica, olhando para o crescimento futuro do negócio, é um investimento que se paga — mesmo antes de qualquer sonho de alto renome entrar em cena.

