Você contratou uma empresa para cuidar do registro da sua marca no INPI, pagou pelo serviço e, depois de algumas semanas, o atendimento simplesmente parou de responder. Essa situação é mais comum do que parece, e a primeira pergunta que surge é sempre a mesma: isso é só uma empresa desorganizada ou caí em um golpe? A resposta muda completamente o que você deve fazer a seguir, então vale entender os sinais antes de entrar em pânico ou, pelo contrário, relaxar demais achando que é só demora normal.
Neste artigo você vai ver como diferenciar os dois cenários, o que verificar sozinho em poucos minutos e quais caminhos tomar em cada caso — seja para cobrar uma empresa que está apenas mal estruturada, seja para denunciar quem nunca teve intenção de prestar o serviço.
Os Dois Cenários Possíveis
Quando uma empresa de registro de marca "some", normalmente existem apenas duas explicações possíveis, e elas pedem reações bem diferentes.
A primeira é a má prestação de serviço: a empresa existe, de fato protocolou (ou tentou protocolar) seu pedido no INPI, mas tem uma estrutura de atendimento ruim, poucos funcionários, processos manuais ou simplesmente não dá prioridade a clientes pequenos. Ela não vai te aplicar um golpe, mas também não está cumprindo o que prometeu com a qualidade esperada.
A segunda é o golpe propriamente dito: a empresa recebeu o pagamento e nunca teve a intenção — ou a estrutura — de protocolar nada no INPI. Nesse caso, o CNPJ pode ser fantasma, o contato pode ter sido feito só por redes sociais ou WhatsApp, e qualquer "comprovante" de protocolo enviado pode ser falso.
A boa notícia é que dá para descobrir em qual desses cenários você está em poucos minutos, sem depender da empresa responder.
O Primeiro Passo: Verifique Você Mesmo no INPI
Antes de qualquer outra ação, confira diretamente na base pública do INPI se existe um pedido de registro em andamento com o nome da sua marca ou o seu CNPJ como depositante. Essa consulta é gratuita e está disponível no site oficial (gov.br/inpi), na ferramenta de busca de marcas.
Se você não sabe exatamente como navegar nesse sistema, o artigo Como Acompanhar o Andamento da Marca no INPI explica o passo a passo de forma simples.
O resultado dessa busca já elimina boa parte da dúvida:
- Existe um processo protocolado com seus dados → a empresa fez pelo menos a parte inicial do trabalho. Provavelmente é um caso de má prestação de serviço, não de golpe puro.
- Não existe absolutamente nada protocolado → aqui o sinal de alerta é muito mais forte, principalmente se já se passaram várias semanas desde o pagamento.
Vale lembrar que o processo pode levar algum tempo para aparecer na base após o protocolo, então, se o pagamento foi muito recente, pode ser só uma questão de prazo do próprio sistema. Já se já se passaram meses sem nenhum registro de movimentação, a situação muda de figura.
Sinais de Que Pode Ser Golpe
Alguns comportamentos, quando combinados, aumentam bastante a chance de você estar diante de uma fraude e não apenas de uma empresa desorganizada:
- O contato só acontecia por WhatsApp pessoal, sem e-mail corporativo, site funcional ou CNPJ verificável.
- O pagamento foi pedido via Pix para uma pessoa física, não para a conta de uma empresa.
- Não existe absolutamente nenhum protocolo no INPI com seus dados, mesmo depois de meses.
- Os perfis em redes sociais da empresa foram apagados ou o número de telefone foi desativado.
- Você recebeu um "comprovante de protocolo" por print ou PDF, mas o número informado não aparece na busca oficial do INPI.
Esse último ponto merece atenção redobrada, porque golpistas costumam fabricar documentos com aparência oficial. Já existem até variações desse tipo de fraude envolvendo comunicações falsas supostamente enviadas pelo INPI, como mostram os casos descritos em E-mail Diz que Marca Está Contestada? Veja Se É Golpe e em Golpe do Boleto Falso do INPI: Como se Proteger. O princípio é sempre o mesmo: desconfiar de qualquer documento que você não consegue confirmar na fonte oficial.
Sinais de Má Prestação de Serviço (Sem Ser Golpe)
Por outro lado, existem padrões que indicam apenas uma empresa mal estruturada, não necessariamente desonesta:
- Existe um CNPJ ativo, site e histórico de atendimento, mesmo que o atendimento atual esteja ruim.
- Há um número de processo no INPI, e ele aparece normalmente na consulta pública, só que parado em alguma etapa.
- A demora em responder coincide com épocas de alta demanda, como picos de pedidos no INPI — algo que vem se tornando mais comum, como mostra o artigo Boom de MEIs em 2026 Acelera Corrida pelo Registro de Marca.
- O atendimento demora, mas eventualmente responde quando você insiste por outros canais, como e-mail formal ou reclamação em plataformas de consumidor.
Nesse cenário, o problema é real e incomoda, mas o caminho de solução é diferente de uma denúncia por fraude — é mais uma questão de cobrança de serviço e, se necessário, rescisão contratual com reembolso.
O Que Fazer Se For Má Prestação de Serviço
Confirmado que existe um processo protocolado e que a empresa é real, o caminho mais eficiente costuma ser:
- Formalize o contato por escrito. Envie e-mail (não só mensagem de WhatsApp) cobrando uma posição, com prazo claro para resposta. Isso cria um histórico que pode ser usado depois, se necessário.
- Consulte o contrato assinado. Veja o que foi prometido em termos de prazo, escopo e acompanhamento. Muitas vezes o atraso está dentro do que foi contratado, mesmo que pareça longo.
- Acompanhe você mesmo o processo no INPI. Mesmo com a empresa inoperante, você pode ver em que fase o pedido está e, em casos simples, até responder a exigências diretamente, caso o prazo esteja se esgotando.
- Registre reclamação formal em canais como Procon ou plataformas de defesa do consumidor, caso a empresa continue sem responder após prazo razoável.
- Avalie contratar outro especialista para assumir o acompanhamento do processo existente, caso a relação com a empresa anterior esteja insustentável. O histórico comentado em Registrar Marca Sozinho ou Contratar Especialista? ajuda a entender o que considerar nessa troca.
Importante: mesmo que a empresa tenha sumido, o processo no INPI continua existindo e seguindo seu trâmite normal. Isso significa que você não perde automaticamente o direito à marca só porque perdeu contato com quem fez o protocolo — mas pode perder prazos importantes se ninguém acompanhar as exigências que surgirem no caminho.
O Que Fazer Se For Golpe
Se a consulta no INPI não mostra nenhum protocolo e os outros sinais de alerta também aparecem, o cenário muda de "cliente insatisfeito" para "vítima de fraude", e as ações recomendadas são outras:
- Reúna todas as provas: prints de conversas, comprovantes de pagamento, contratos (mesmo informais) e qualquer e-mail trocado.
- Registre um boletim de ocorrência, especificando que houve pagamento por um serviço que não foi prestado nem comprovadamente iniciado.
- Notifique o banco ou instituição de pagamento usada na transação, principalmente se foi via Pix, para verificar possibilidade de contestação.
- Denuncie o golpe em canais de proteção ao consumidor e, se a empresa usava identidade visual parecida com o INPI ou outros órgãos oficiais, considere também informar o próprio INPI sobre o uso indevido de sua marca ou imagem.
- Inicie o registro do zero, com outro profissional ou diretamente pelo sistema do INPI, já que o tempo perdido com o golpista normalmente não é recuperável em termos de andamento processual.
Esse tipo de fraude tem crescido, inclusive com aplicação de penalidades severas contra golpistas identificados, como mostram os casos tratados em INPI Aplica Multas de Até R$ 60 Milhões a Golpistas. Ainda assim, a recuperação do dinheiro pago individualmente costuma ser difícil, o que reforça a importância da prevenção.
Como Se Proteger Antes de Contratar
Para quem ainda vai contratar alguém para cuidar do registro — seja pela primeira vez ou depois de uma experiência ruim — alguns cuidados simples reduzem bastante o risco:
- Prefira empresas com CNPJ ativo, site funcional e presença profissional consolidada, não apenas um perfil recente em rede social.
- Peça o número do processo assim que ele for protocolado e confira pessoalmente na base do INPI se ele realmente existe.
- Desconfie de promessas de aprovação garantida ou prazos muito mais curtos do que o normal do órgão.
- Entenda, antes de contratar, as etapas básicas do processo — o artigo Registro de Marca no INPI: Passo a Passo Simplificado é um bom ponto de partida.
- Evite pagar valores integrais e altos antecipadamente sem contrato formal que detalhe escopo, prazos e forma de acompanhamento.
Esse tipo de verificação leva poucos minutos e evita boa parte das dores de cabeça descritas neste artigo.
Conclusão
Diferenciar má prestação de serviço de golpe começa sempre pelo mesmo gesto: consultar você mesmo, diretamente na base pública do INPI, se existe um processo real em andamento com seus dados. Se existe, o problema é de atendimento e pode ser resolvido com cobrança formal, reclamação ou troca de profissional. Se não existe nada protocolado após um tempo razoável, somado a sinais como pagamento informal e sumiço total de contato, o cenário provavelmente é de fraude, e o caminho passa por boletim de ocorrência e contestação bancária. Em qualquer um dos dois casos, acompanhar pessoalmente o andamento da marca — e não depender cegamente de terceiros — é a melhor forma de proteção.

